Geral

12 de Agosto de 2017 às 10:05:53h

Ex-secretário deixa CCC em silêncio, mas promete falar na próxima semana

Paulo Taques é acusado de participar do esquema de grampos ilegais no Estado

O ex-secretário da Casa Civil, Paulo Taques, deixou o Centro de Custódia da Capital (CCC) em direção a sua residência, em Cuiabá, na tarde desta sexta-feira (11). Ele foi preso no dia 4 de agosto por suposto envolvimento nas interceptações telefônicas ilegais e tentativa de obstruir as investigações. 

Ele deixou a prisão em silêncio, mas prometeu se pronunciar sobre sua prisão e investigações na próxima semana. “Em respeito a vocês que estão aqui até agora, mas não posso falar nada. Na semana que vem falo com a imprensa” disse rapidamente antes de entrar no carro que o levou do CCC.

Na noite da última quinta-feira (10), porém, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) concedeu um habeas corpus que garantiu sua liberdade.

Paulo Taques não fará uso de tornozeleira eletrônica. As únicas medidas cautelares impostas ao ex-secretário são a proibição de frequentar prédios públicos da “governadoria, secretaria de segurança, secretaria de justiça e direitos humano, a Casa Civil, a Casa Militar e a Polícia Militar de Mato Grosso”. 

Ele também não pode se ausentar do país ou da comarca de Cuiabá sem autorização da Justiça e deve comparecer mensalmente em juízo.

PRISÃO

De acordo com o desembargador Orlando Perri, que determinou a prisão de Paulo Taques, o ex-secretário Chefe da Casa Civil teria utilizado a própria estrutura do Governo do Estado para “embaraçar” as investigações contra as interceptações telefônicas ilegais promovidas pela Polícia Militar. Ele é suspeito de grampear uma ex-amante, além de jornalistas e desafetos políticos. 

Entre os fatos apontados pelo desembargador Orlando Perri para justificar a prisão de Paulo Taques está a suspeita de um caso de interceptação telefônica ilegal ocorrida em Lucas do Rio Verde (354 km de Cuiabá), durante as eleições de 2016.

Taques disse que informou ao então Secretário Chefe da Casa Militar, o coronel PM Airton Benedito Siqueira Junior, que uma Central Clandestina de Monitoramento de Ligações Telefônicas estava em operação na cidade e tinha o objetivo de obter informações da campanha eleitoral do candidato a prefeito Otaviano Pivetta (sem partido), derrotado na disputa por Luiz Binotti (PSD), teoricamente, o mandante dos grampos.

O desembargador Orlando Perri, porém, afirmou que o caso foi apenas um jogo de cena para Paulo Taques passar de “suspeito para vítima”, tendo em vista que ele prestava serviços jurídicos ao candidato Otaviano Pivetta, e que as interceptações telefônicas teriam ocorrido em seu escritório de advocacia (Zamar Taques Advogados Associados).  

Um inquérito policial foi instaurado, mas para investigar, na verdade, a acusação de que foi Paulo Taques quem montou uma central clandestina de interceptações telefônicas em Lucas do Rio Verde para monitorar a campanha de Luiz Binotti – o inverso do que ele próprio diz. O fato fez com que o ex-Secretário Chefe da Casa Civil, ao invés de aguardar por sua intimação no processo e responder os questionamentos na Justiça, optou por “contra-argumentar os fatos que aportaram aos autos” e se passar como “vítima da situação”, conforme Perri explica.

“Estou a me referir ao inquérito policial instaurado para apuração da prática do crime de interceptação telefônica clandestina, supostamente ocorrida na eleição municipal de 2016, em Lucas do Rio Verde, onde o então Chefe da Casa Civil, ao tomar conhecimento de acusações contra sua pessoa, ao invés de aguardar sua intimação para ser ouvido e apresentar sua versão sobre os fatos, resolveu, por bem, e, a meu entender, de maneira completamente abusiva, contra-argumentar os fatos que aportaram aos autos, passando de suspeito para vítima, com a inconcussa intenção de desviar o foco das investigações”, diz trecho da ordem de prisão.

Orlando Perri apontou, ainda, que Paulo Taques teria grampeado a própria amante por “ciúmes”. Segundo despacho do desembargador, Tatiane Sangalli, que teria vivido um relacionamento amoroso com o ex-secretario da Casa Civil, vem sendo espionada ilegalmente desde outubro de 2014, ainda na gestão Silval Barbosa (PMDB), e que o monitoramento continuou mesmo após a posse de Pedro Taques (PSDB), primo de Paulo, ao governo de Mato Grosso em janeiro de 2015.

Sangalli sofreu interceptações telefônicas ilegais a pedido do ex-secretário da Casa Civil em duas operações da Polícia Judiciária Civil (PJC). Ambos inquéritos foram arquivados por falta de provas. Duas pessoas próximas a ex-amante também foram grampeadas - Carolina Mariane, assessora direta do ex-secretario da Casa Civil, e Kelly Ribeiro Zen, filha do ex-bicheiro João Arcanjo Ribeiro.

O pedido de prisão preventiva de Paulo Taques revela uma história bizarra. De acordo com o desembargador Orlando Perri, o principal motivo para a interceptação telefônica feita contra Tatiane Sangalli seria um suposto casamento entre ela e João Arcanjo Ribeiro. A filha do ex-bicheiro, Kelly Zen, foi apontada como “cupido” do matrimônio, e, por esse motivo, também teria sido interceptada.

“Se verdadeira a motivação apresentada por Tatiane Sangalli, no sentido de que acredita ter sido grampeada “por ciúmes” do Paulo Taques, temos mais um ingrediente a acrescentar no ardil criminoso. Assim parece, porque Kelly é médica e amiga de Sangalli; além disso, conforme revelado na Operação Querubim – parece que Kelly fazia uma ponte entre Tatiane e seu pai, João Arcanjo Ribeiro. E exatamente por se acreditar que Tatiane Sangalli poderia mesmo estar articulando um casamento com João Arcanjo Ribeiro, fez-se a interceptação daquela que estava a se fazer de cupido. Esta pode ser a razão pela qual Kelly Arcanjo Ribeiro Zen foi grampeada”.

Fonte: FolhaMax